Olá

Bem vindo a partes de mim



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

"o mar tem séries"
foi o que Ianca me disse enquanto me ensinava a passar pelas ondas
e logo após eu fui derrubada, diversas vezes
até o momento da calmaria, em que gritou pra que a gente remasse
e fizesse do silêncio do oceano a sua porta de entrada

a vida tem séries
e eu insisto em me desacostumar com elas, ano após ano
ciclo após ciclo
me apego aos finais, aos condenados, os extintos
à certeza da dor
ao mar raso
para evitar nadar durante a calmaria
eu tenho medo de chegar ao fundo
de passar as ondas
tenho medo de qualquer coisa que possa encontrar
do outro lado
depois da espuma

encerro uma série,
a primeira.
E esta é a que significa pouco mais do que nada
significa apenas a coragem de querer tentar, mesmo sem de fato fazê-lo
as surras e arrebentações
gritaram ao pé do meu ouvido cheio d'água:
coragem, menina.
Queira o seu querer
acredite no ritmo
acredite nas possibilidades
acredite em você
e se permita viver que esta além do medo


a vida trabalha em séries.
É hora da calmaria,
reme.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

acordo cedo e ainda é cedo demais
eu vejo seu corpo contornado de raios solares
é antes das oito, o sol sorri
e nos abraça queimando a pele que treme de frio

eu olho e você sorri
eu não sei ler seus sorrisos
você não me deixa ler seus olhares - nunca se demora o suficiente
eu não sei se devo me aproximar
não sei como me aproximar
mas meu corpo entra em batalha interna e parece que seu peito é a única zona de paz

eu te abraço e sinto que quero que fique.
e sinto muito.
eu desejo com todas as forças ingênuas do mundo
que de alguma forma esse toque saiba falar
pra te contar as coisas bonitas que não consigo
eu desejo com tanta força que seja tudo real
energias, paixões, magnetismo, astrologia, reza forte
eu desejo que alguma dessas coisas possa levar até você
tudo de bom que sinto


17 de julho de 2017
hoje eu quis muito o seu mal
quis querer o seu mal, aliás
queria de qualquer forma possível
dizer-te pra ir embora, correr como fugitivo dali
(mesmo sabendo que você sequer chegou a ficar)
o que eu realmente queria
de fato, queria querer
era te arrancar daqui de dentro
onde de alguma maneira,
sem qualquer justificativa
eu te semeei de deixei brotar

gostaria de poder arrancar você de minha pele
com as próprias unhas rasgar o local em que você se alojou
entre meus seios
e cuspir de volta a parte de você que entrou em mim

mas isso não combina em nada comigo
são as sombras da árvore que cultivo

meu desejo - esse que mora pequenino no peito
e eu mal deixo falar -
é somente
tão somente
te grudar a pele.
É dizer: vem comigo ouvir um disco de belchior
vem sem motivo
não quero te convencer a ficar
porque também não há qualquer motivo pra minha vontade
chega, de surpresa
me chame para queimar ervas e divagar
sobre a vida que é bonita

não apago nem a lembrança nem o cigarro
teu beijo é um bom retorno
eu fico no mesmo lugar


MENINO QUE DANADO É ISSO PORQUE EU AINDA TÔ NESSA

01 de agosto de 2017

eu tenho medo
medo quando cruzo a rotatória e me perco olhando
na direção da sua casa
e medo de que você me roube mais uma manhã no trabalho
tenho medo que eu tenha medo de te encontrar
medo de falar
medo de estar perto
eu tenho medo quando olho seu corpo e sinto meu corpo estremecer
eu tenho muito medo quando percebo que você me dá medo
porque eu desenvolvi medo ao mundo áspero
eu desenvolvi medo de escrever poesias como essa
que não tem rima não tem gosto não tem textura não tem final
é uma poesia jogada no papel de tudo que não cabe aqui
é medo porque é grande
o medo não é a ausência de coragem
o medo é quem te exige coragem
e por isso é a única forma que ela tem de florescer
eu sinto medo dos teus olhos que pouco me acham
porque quando eles me acham eu desmorono
eu tenho medo das suas mãos porque elas abraçam meu corpo de uma forma que o faz perder o medo do mundo
eu tenho medo de mim quando estou perto de você
eu tenho muito medo de quando você aparece
e me faz revirar o estômago sorrir feito boba cair no chão
eu sinto medo quando você me chama pra ganhar o mundo
porque eu não conheço seu mundo
eu tenho medo quando te vejo andando ao longe e balançando os cabelos
procurando algo que esqueceu em qualquer outro lugar
eu tenho muito medo do que eu sinto quando eu te vejo
e tenho mais medo ainda do que eu sinto quando te toco
eu tenho medo porque não consigo escrever — e isso é forçar o vômito com o dedo na goela -
eu tenho medo porque são 10:16 da manhã e o seu beijo já me assaltou diversas vezes nesse dia 

10 de julho de 2017
sejamos sinceros
já é inegável
que estremeço
que possuo poucas
- e deveria possuir nenhuma
expectativa
mas o corpo ainda fala
ele grita
toda vez que percebe o outro corpo em volta
é fome
é sede
é desejo
.
não deveria existir
mas existe
esse é o mal dos sentimentos
correm soltos
e não há quem possa domar
se a vontade já é muita
mesmo com a coragem pouca
é porque existem
nem que seja a vontade

4 de julho de 2017

segredo

guardarei esse poema secreto,
escondido em algum lugar que poderei falar sobre nós
porque existe um momento
que se forma
quando eu cruzo a salgado filho na madrugada
e a rádio me toca um samba
ou um blues - às vezes é blues
eu percebo como viver é lindo
e eu sinto vontade de te contar
te dizer que viver é muito bonito, e gostoso
eu me lembro de você
e esse é o nosso segredo
porque supostamente eu não deveria
deveria era queimar seus beijos
as lembranças
a marca ardente fincada no corpo
o cheiro
a voz
e nunca me lembrar do seu ritmo
,mas eu vivo esse momento tão sublime e me lembro de você
que talvez vê a chuva de outra janela na cidade
quem sabe nem veja
as histórias às vezes se cruzam rápido demais
mas a noite era bonita
e dançava com o samba
você ia gostar
é o nosso segredo
que eu lembro de você


21 de junho de 2017

eu tenho em mim um bicho que me devora a pele
rói por arrepios toda minha superfície, que estreme
ao olhar os cuidados do seu rosto

eu tenho medo como belchior tinha
porque eu também sei que a felicidade é a arma quente
que nos explode o peito
ao conceder exatamente tudo que pedimos

a paixão, eu acredito, me enche de medo
me consome como chama tornando brasa quem a alimenta
será território seguro?
será que há segurança pra aqueles que escolhem saltar?

4 de julho de 2017

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

é dia nove.
eu sinto o peso de oito meses.
São oito meses percebendo que morremos
e até hoje eu não sei.
Foram oito meses alternando entre realidade e fuga, dor e ausência, coragem e angústia.
São oito meses sabendo que morremos.
E por isso, desejando tanto viver.
Contudo, eu não sei dizer
tem um pedaço meu errado, colado errado
ele sobra e falta
é mais de um ano sem compreender nada, perdida em mim.
Me vejo, hoje,
aprisionada na própria solidão.

meu olhos são terra seca, rachada, ardendo
e não choro.
por dentro, enquanto, se faz tempestade
e os barcos sofrem, viram, são judiados pelas águas
num fosso escuro que se escondeu o que sinto
morremos. e a morte nos faz pequenos demais.
tenho medo de partilhar a vida, sinto que desaprendi
sinto que não sou capaz
de ser confortável a outro ser

sinto que a vida é real.
e isso me incomoda.
É real, e por isso finda.
Finda como todos os dias são findos
e todos os atos são despedida

me sinto longe
porque parece errado viver a juventude sem você
por mais que você quisesse tanto viver
mas eu não me sinto pronta
eu me sinto estranha
eu me vejo fora
eu me vejo distante

o caos

a incerteza

e me fecho.

Não feito rosa. Mas feito pontes levadiças. Concreto. Real. Impenetrável.
Grito do alto da torre e não há resposta.
o que considerei janela era espelho.
e a imagem refletida continua muda.
É minha alma que chora e é ela mesma que grita
portões fechados
os gritos ecoam por dentro da muralha
e o reflexo no espelho não emite nenhum som
nenhuma expressão
nem sequer vibra, contendo o impulso

Medusa, petrificada por seu próprio castigo
percebe que na verdade não é uma mulher fácil
assim como a vida também não é essa mulher
não reconhece o espelho não reconhece o grito não reconhece nada

é um bicho complexo demais

não é estátua
não é o que queria ser
só sabe que é
seja o que for

Percebe-se distante. E ao se aproximar, já não percebe-se.

silêncio. ausência. dor. fuga. medo. sabotagem. solidão. morte. medo.

apoio. abraço. coragem. compreensão. eu te vejo. eu te amo. despedir-se.

aceitar. encarar. transformar.